Carta aos Espíritas

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Queridos amigos e irmãos na fé, aproveito este ensejo para renovar a minha gratidão ao Pai Celestial e ao nosso senhor Jesus Cristo pela maravilhosa acolhida que me foi dispensada nos meus noventa e dois anos de vida, comungando do mais doce convívio com cada um de vocês.

A tarefa que, por determinação do Senhor Jesus, me foi confiada junto à doutrina dos espíritos só foi realizada a duras penas, graças ao auxílio dos maravilhosos prepostos de Deus e ao apoio e compreensão dos meus companheiros de jornada.

Logo no início de minha jornada, aos cinco anos, teve por bem o Pai celestial me furtar da companhia da minha querida e amada mãezinha, levando-a prematuramente às esferas do plano espiritual, ficando a minha guarda sob os auspícios de uma pobre alma que ainda não havia encontrado o amor do nosso senhor Jesus Cristo em sua vida.

Não que eu merecesse qualquer distinção de tratamento, mas com esse episódio as forças ocultas das trevas iniciaram uma investida contra a minha pessoa, proporcionando-me uma vasta e cruel onda de sofrimento. Recebia regularmente três surras de vara de marmelo e o meu abdome perfurado por garfo, sem a menor comiseração. Nesse mesmo período surge a figura magistral da minha querida mãezinha trazendo-me o alívio à minha dor. Abria-se ali a porta do além túmulo para não se fecharem mais, até o meu regresso à pátria espiritual.

A misericórdia divina apiedou-se de mim e me enviou um anjo na figura da minha madrasta, alma nobre que me acolheu como filho. Cidália, a querida madrasta que Deus me enviou, recolheu todos os filhos desgarrados de minha mãezinha e os acolheu debaixo da sua graciosa proteção.

Conto alguns fatos de minha vida, não para parecer forte, pois tenho plena noção da minha pequenez, mas para fazer um tributo a Deus e àqueles que me ampararam nos momentos difíceis da minha vida.

Graças à enfermidade de uma querida irmã, tive o primeiro contato com a maravilhosa Doutrina dos Espíritos, e logo percebi que era essa a verdade que me aquecia o coração, e dela não me afastei mais.

Após o estudo sistematizado da nossa doutrina, surgiam os primeiros movimentos mediúnicos que desabrochavam na minha constituição fisiológica, e com eles a perseguição implacável dos nossos irmãos menos esclarecidos, que habitam as trevas do pensamento humano.

O nosso senhor Jesus me amparando - pois sem o amparo dos espíritos superiores, pouco me seria possível realizar - deu-me forças para continuar nessa, que na época eu nem imaginava, tarefa abençoada do livro espírita.

O aparecimento do querido companheiro Emmanuel, posso designar como sendo o bálsamo para minhas feridas morais, proporcionou-me o sustentáculo para vencer as minhas grandes dificuldades e trabalhar, lembrando sempre das três assertivas: disciplina, disciplina e disciplina.

Os espíritos que vivem nas trevas da consciência movimentaram-se, e por ignorância das leis do amor, armaram várias armadilhas no decorrer da minha vida, entre elas podemos lembrar das diversas perseguições das quais fui alvo, tanto pelos religiosos da época, como pelos meios de comunicação; processo judicial pelos direitos autorais das memoráveis obras do querido Humberto de Campos; e a perseguição daqueles que compartilhavam da nossa fé na Doutrina Espírita. Graças a Deus e a Jesus tive forças para superar e às vezes calar a minha indignação.

Por mais que eles tentassem, as forças do bem não permitiram que se calassem as vozes do além, e através das minhas humildes possibilidades os espíritos superiores, esses benfeitores da humanidade, continuaram as tarefas da divulgação espírita.

Hoje me vejo na iminência de proclamar a vitória das trevas sobre este humilde operário do Cristo, pois colocaram-me no altar do olimpo, na condição de semi-deus ou algo que se pareça, impedindo-me de dar continuidade à abençoada e simples jornada do amor.

Deparo-me com diversos companheiros, portadores das mais promissoras faculdades mediúnicas, que tremem ao ligeiro pronunciar do meu mísero nome, trazendo-me grande dificuldade de expressar a minha pequena opinião sobre os fatos espíritas.

Será que todos estão esquecendo a universalidade das informações? Esquecendo das regras básicas estabelecidas por Allan Kardec para se identificar a identidade dos espíritos?

Lembro-me sempre das palavras ponderadas e seguras do amigo Emmanuel que afirmava: “Toda página escrita tem alma... O exame sincero esclarecerá imediatamente a que esfera pertence... O leitor amigo da verdade e do bem analisar-lhe-á as linhas para ajuizar da pureza do seu conteúdo, compreendendo que, se as suas expressões foram nascidas de fonte superior, aí encontrará os sinais inequívocos da paz, da moderação, da afabilidade fraternal, da compreensão amorosa e dos bons frutos, enfim...”

Até quando o endeusamento dum pobre verme vai impedi-lo de continuar a sua humilde tarefa de propagação dos postulados espíritas?

Sinceramente, não vejo muitas perspectivas para solução imediata desse imbróglio criado pelos estudiosos da doutrina espírita. O que me resta é continuar na minha humilde posição, soprando aos ouvidos daqueles que estão investidos da humildade para que as trevas não consigam me silenciar.

A abençoada Doutrina Espírita precisa encontrar forças para transformar a elite que dirige os seus postulados em humildes trabalhadores, desprovidos de preconceito e orgulho, para que as vozes do além túmulo permaneçam com a continuidade e complementação dos ensinamentos doutrinários.

A confiança Naquele que dirige os nossos destinos há de nos dar forças, e acima de tudo fé, para superar as montanhas que são colocadas à nossa frente. A seara do nosso senhor Jesus não pode ficar imóvel pela burocracia espírita, acolhendo as mais ridículas regras para impedir que seus humildes filhos possam trabalhar (“Importa, porém, caminhar hoje, amanhã e no dia seguinte” – Jesus – Lucas 13:33).

Não faço aqui um apelo desesperado para a aceitação de tudo que vem do além, mas rogo pelo bom senso de todos aqueles que compartilharam comigo das vigorosas luzes da nossa Doutrina, que abram os seus corações e permitam que o pobre Chico possa realmente colocar a sua humilde colaboração nessa grandiosa obra do amor.

Deixo a todos os companheiros e companheiras envolvidos nos trabalhos de divulgação da nossa bendita e abençoada Doutrina um forte abraço e a esperança de dias melhores.

Chico Xavier - 05/04/2010
(Psicografia: Paulo Guedes)